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Borboletas no Camboja

Phnom Penh, Camboja

Pela primeira vez, estava eu sozinha no Camboja. Peguei um ônibus de Siem Riep para Battambang, uma cidade pouco turística no noroeste do pais. Do meu lado sentava um senhor australiano, que dividiu comigo boas três horas de conversa, que partiram das questões mais banais até as mais profundas da vida.


Greg Young, viaja o mundo a procura de um bom lugar para comprar uma casa e passar sua velhice, na tranquilidade de uma varanda com vista para o mar. Ele esteve no sul da França, Filipinas, Tailândia e ali seguia para o litoral do Camboja.


"Você tem que tentar simplificar ao máximo seus pensamentos. Saiba o que quer agora e vá atrás disso. O universo simplesmente te ajudará naquilo que precisar para conseguir o que quer, se realmente esse for o seu caminho e se não for os sinais te dirão também. Esteja atenta!" - me disse, após eu perguntar como ele lidava com a dúvida diante das difíceis escolhas da vida.


"O universo tem suas formas de se comunicar conosco. Quer saber um segredo? Eu tenho uma palavra chave ela sempre me aparece quando eu preciso ser lembrado de algo. Por exemplo: se a sua for pássaro azul, de alguma forma um aparecerá quando você precisar. Seja num desenho, escrito em algo, na roupa de alguém, ou o próprio animal. Vai vir até você para te lembrar do seu caminho.", acrescentou ele. Refleti por um instante se teria eu alguma palavra ou símbolo e só nesses últimos dias fui compreender do que ele estava falando.


Certo dia pela manhã, um menino me entregou um pedaço de papel, com um desenho de uma mulher com asas.

"Teacher butterfly!", ele me disse.

"You are butterfly, teacher" - Você é uma borboleta, professora. Ele repetiu.


Lembrei-me de um sonho que tive dois dias antes de embarcar para a Ásia, no qual dezenas de borboletas invadiam o meu quarto e especialmente uma gigantesca sobrevoava minha cabeça. Segundo o xamanismo, a borboleta é o grande símbolo da transformação. Ela nos lembra que a vida está em constante processo de transição de uma fase para a outra. Do ovo para a larva, da larva para o casulo e do casulo para borboleta quando finalmente estamos prontos para compartilhar com o mundo nossas cores e voar para onde o vento nos parecer mais convidativo.


Eis que me surge a palavra chave a qual Greg se referia. Borboleta é a minha palavra por agora. Butterfly.


Ela vem me ensinar a saber ir e a saber ficar. A saber esperar o tempo certo das minhas fases, o tempo certo para iniciar ou construir algo e o tempo certo para deixar ir o que não mais pode ficar. Deixar-me voar. E como é difícil partir! Deixar-se ir! Já tive que dar difíceis adeus na minha vida. Alguns com a certeza do reencontro, alguns com a certeza da separação. Alguns já roguei com todas minhas forças para que o universo não trouxesse de volta, outros já orei de joelhos para que tivesse apenas mais um dia comigo. Cada adeus é diferente e cada sentimento que ele traz é incomparável. Você pode ter se despedido de muitas pessoas na sua vida, mas nunca se torna mais fácil, enquanto você realmente estiver de coração naquilo.


Eu que sempre tive dificuldade em dizer adeus, certa vez ouvi de uma amiga: "Paula, ao menos que você queira viver uma vida apática e protegida do externo, as relações lhe trarão todos esses intensos sentimentos. Se você opta por viver uma vida inteira e entregue, terá de conviver com o amor, a dor, a saudade e todos os sentimentos que viemos aqui para experimentar."

Entre todas as despedidas ao deixar Battambang, sem dúvidas a mais difícil foi dizer adeus a amada Mana, filha do casal que gerencia a escola na qual moramos e trabalhamos.

Aos 12 anos, pode-se ver nos olhos de Mana que ela já viveu muita coisa. Logo que cheguei ela manteve-se um tanto distante de todos. Longe da confusão de voluntários em sua casa. Para alguns poderia parecer uma menina durona e de pouca afetividade. Mas desde o início vi o grande amor que ela guardava e o também grande escudo que colocará para se proteger das pessoas que vem e vão tão rápido em sua vida. Tínhamos muito o que aprender juntas.


Aos poucos fomos nos aproximando. Ela me permitiu entrar em seu mundo e ficou curiosa para conhecer o meu.

Ela me ajudou a aprender a andar de bicicleta (sim, eu ainda estou aprendendo) e a fazer uma lótus de papel e eu a ensinei a dançar Macarena e a dar um beijo de bom dia.

Eu lhe dei um chocolate e ela me deu uma cartinha com corações. Fomos pra sua escola de mãos dadas e ela pulava no carro toda vez que eu dirigia para a cidade.

No meu último dia, eu não quis chorar na frente dela e ela não quis chorar na minha frente. Acabamos choramos as duas, abraçadas com seus irmãos e sua mãe Rath.


Após duas semanas voluntariando no interior do Camboja, ainda tenho dificuldade para assimilar e transmitir tudo que vivi e senti aqui.

Do grupo de voluntários que se tornaram uma louca e apaixonada família, da também amável família cambojana que nos acolheu aqui e a qual me apeguei como minha própria, ao imensurável amor e alegria doado todos os dias pelas crianças e adolescentes que frequentam a escola.

Todos fizeram com que nos últimos dias eu quisesse passar o resto da minha viagem nesse vilarejo com essas pessoas tão especiais.

No meu último dia, entre risos e choros me despedi da minha sala da manhã e para minha surpresa, no fim da tarde, alguns alunos adolescentes de outra sala, riam em volta de um caderno que tinha um desenho meu com asas de borboleta.

Minha segunda Borboleta.

Perguntei ao dono do caderno porque me desenhara como borboleta e ele disse: "because I see you like this" - porque eu te vejo assim, ele respondeu.

Butterfly.

É hora de voar meus amigos.

Obrigada por todo o amor, todo aprendizado, todas histórias vividas e compartilhadas. Obrigada por me deixar entrar em suas vidas e por acrescentar tanto na minha.

Este adeus é um daqueles com a certeza de reencontro.

Chuob Khania Pel Karawy!

Aw-kun