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Voluntariado no Camboja

Battambang, Camboja


Cheguei no início de fevereiro de 2017 na AKD School, uma escola de inglês que recebe cerca de 400 crianças e adolescentes de baixa renda familiar, localizada na cidade de Battambang no Camboja.

Escolhi essa escola entre tantas outras disponíveis nos sites Worldpackers e Workaway, que te colocam diretamente em contato com as instituições, após pagar uma taxa anual de usuário. Ambos os sites, têm diversas opções de voluntariado e trabalhos em troca de hospedagem no exterior e no Brasil. Sem contar que o pessoal do Worldpackers, em especial, é incrível (sou suspeita para falar).


Nesses sites você encontrará voluntariados de todo tipo. Eu quis o desafio de trabalhar com crianças, mesmo nunca tendo ensinado nada, muito menos inglês, que não sou lá muito fluente! Mas já adianto, caso você tenha vontade de fazer um voluntariado parecido e se preocupa com sua fluência, minha primeira lição aprendida aqui foi que não importa o quanto você sabe sobre algo, sempre haverá alguém que sabe menos e você terá o que ensinar para essa pessoa. Não sejamos tão perfeccionistas! Nunca estaremos 100% prontos para tudo. O que sabemos, pode nos parecer pouco, mas já é o suficiente pra muita gente.

Além da barreira da comunicação e da falta de experiência como professora, eu tive receio da possível difícil relação com as crianças em uma cultura tão diferente da minha.


Segunda lição aprendida: crianças são crianças, em qualquer lugar do planeta. Por mais que hajam diferenças culturais, nossa essência humana é a mesma. Elas vão querer brincar, pular, vão chorar e rir como quaisquer outras crianças no mundo.


Sempre tive uma criança interior muito viva - por vezes inocente e impulsiva - que por alguns anos mantive escondida em algum canto do meu coração. Não por uma escolha consciente, mas por comprar as ideias sociais do que é ser um adulto responsável. Na AKD, permiti que a minha criança se liberta-se e se expressa-se livremente. Entrei no mundo delas e percebi que na verdade nunca estive fora dele, pois o mundo da criança é o mesmo do adulto. Eles veem o mesmo céu que nós vemos. As mesmas árvores. Mas a forma como veem o mundo é cheia de indagações, possibilidades e cores que com o passar do tempo nossos olhos deixam de enxergar.


Me entreguei por completo. Rolei no chão, me pendurei no balanço, brinquei de esconde-esconde, de elástico e de outras brincadeiras que nem sei como minha memória ainda guardava as regras. Toquei músicas infantis brasileiras e elas me ensinaram a dança cambojana.

Quando cheguei, éramos 21 voluntários em uma casa de três quartos e um banheiro, que se localiza ao fundo da escola. Geralmente mantêm-se entre 5 á 10 voluntários, mas aquela era uma semana especialmente diferente. A família que nos recebia, dormia em camas improvisadas na garagem, para ceder lugar aos professores, enquanto uma nova casa estava sendo construída no mesmo terreno. A casa era confortável, apesar do grande número de pessoas. Sorte que nunca tive muitos problema com adaptação e sem dúvidas morar com tantas pessoas, testa a sua capacidade de sociabilidade e flexibilidade.


A hiper-lotação nos trouxe calor humano e boas histórias. Fazíamos quase tudo juntos. Ninguém tinha muito tempo ou espaço para ficar sozinho (a não ser no banho, claro).

Café da manhã; planejamento de aulas; almoço; aulas; conversas; aulas; jantar; cervejas e mais conversas. Essa era a rotina entre os voluntários.


Nas duas semanas que passei na escola, 30 pessoas chegaram e partiram e eu sempre fui a única latina americana entre a maioria de norte americanos e europeus. O que foi uma interessante oportunidade de conhecer diferentes culturas em um mesmo lugar.

A escola funciona a mais de 10 anos, através de doações, utilizadas para a manutenção e gastos básicos das instalações e salários de professores nativos que lideram as salas com crianças entre 6 e 13 anos e algumas salas de adolescentes e jovens, incluindo alguns Monges.


Os voluntários auxiliam nas salas junto aos professores nativos e ensinam sozinhos naquelas salas sem verba para professores.

Fiquei como professora auxiliar em uma sala e sozinha em outra.

Poucos são os voluntários que podem ficar mais de um mês e em média ficam entre uma á três semanas, o que acaba sendo complicado para a adaptação dos alunos, que têm de trocar várias vezes de professores ao longo do ano, ao mesmo tempo, essa é a única solução até então encontrada pela instituição para manter as classes sem professores nativos abertas e arrecadar parte do valor necessário para administração da escola com os $5 dólares pagos por cada voluntário por dia pela acomodação e três refeições fornecidas.

Trabalhar como professora na AKD School, foi muito além do que eu esperava viver em tão pouco tempo.


Minha expectativa era viver um pouco mais próxima da cultura local e desafiar a mim mesma a viver essa experiência de dividir um pouco do que sei com o outro, durante meu mochilão de 3 meses pelo Sudeste Asiático. Mas me vi entregue a uma das vivências mais intensas da minha vida e um sentimento de completude, que é até difícil de explicar, junto a imensa vontade de retornar no futuro com a disponibilidade de um tempo maior para melhor contribuir com o trabalho.


"Quando viajo gosto de deixar algo no pais que passei. Não gosto de apenas ver coisas, ver cartões postais, mas ensinar e aprender coisas também. Esse é basicamente o motivo pelo qual faço voluntariado enquanto viajo.", me disse Pim Vanheerde, um holandês de apenas 19 anos, mas com a alma de um velho sábio, como eu gostava de lhe dizer, que esteve por uma semana conosco na escola.


Mirko Valdez, outro voluntário da Sérvia, que comemorou seu aniversário um dia após minha chegada na AKD, disse que o que levou de mais rico da experiência foi a troca de realidades, tanto entre os voluntários como com a familia que nos acolheu e os alunos. "Muitas vezes algo chocante pra mim, não choca o outro. Ou algo que é normal para mim, pode ser completamente estranho pro outro e essa troca é muito rica pois ajusta o seu olhar pro mundo, como um olhar muito mais real", disse ele.


Para mim, cada dia no voluntariado foi um exercício de constante entrega, compaixão e cumplicidade. Um exercício de se doar e de deixar-se receber. Me descobri capaz de ensinar alguém e aberta a aprender. Vivi um processo de romper armaduras e conectar semelhanças muito além do que exaltar diferenças.


Conectar é a palavra perfeita para resumir minha experiência.

Me conectei.




© 2019 por Paula Arnoso.